Hoje eu vi uma coisa linda, e eram mãos. A mão, assim, mão já bastante usada na vida, mão de uma velha que gastou muito em amar e abençoar os outros. A mão dela, enquanto ela falava, repousava sobre as pernas cruzadas, ora molhava na água a benzer os outros ou ainda no charuto à boca, desfumaçar de mal as pessoas. Era encurvada além da conta quando se fechava, era coberta de pele que já se afina como vai afinando e amolecendo a carne, sempre. E segurava firme, e firme era o esmalte brilhoso, rosa-escuro que mantinha bem pintado em cada uma das cumpridas unhas. A mão era coberta de manchas marronzinhas e pintas que davam aquela aparência de leopardo que as mulheres vão ganhando enquanto a definhação vai chegando: um poder de ter vivido. Ela, a velha, sorriu um tanto cansada e serena depois das bênçãos. Contou que o neto outro dia olhava aquelas mãos com dó, e durante longa hora perdeu-se nas reentranciazinhas delas. Depois, disse: “a gente dá as mãos todos os dias né vó?”. As mãos da velha, pra ele, sagradas; e pra mim, santas.
Quase-gesto
junho 10, 2010 às 00:08 (Da gente)
Hoje eu vi o ódio nos olhos de um homem. Vi os olhos escuros, redondinhos e vermelhos de sono, olharem de perto numa confusão nova cheia de vigor, a verdade odienta que o corpo sente não se freando a não ser nas palavras. Essas, contidas. Mas os olhos. Que desfocam. Que se apertam numa desacreditância. Que não queriam ter que olhar, ter que ver. Ódio verdadeiro, real, insufocado e dolorido. Tive Medo. O corpo odiava todo. As palavras razoavam. Mas mergulhado num segundo vi o esboçar de um abraço que se perdeu antes ainda de virar impulso. Um que o coração manda e o querer desobedece. Num único quase-gesto, querecência e desquerecência. Hoje eu vi a largueza incontível do amor.
Folhabarco
junho 8, 2010 às 00:08 (Da terra)
Foi um achado, assim no meu caminho pequeno de duas vezes por semana, que me chamou a atenção por feia. Mais: por pequena, por estar ali quase para que eu pisasse nela e ouvisse um partir seco crash. Mas não. Peguei a folhabarco, hoje ela vai ficar aqui, preu olhar nela vez em hora. É bonita porque traz em si a morte, traz em si a vida e a tormenta da renovação. Uma folha vermelha, de que árvore será?, já encurvadinha pela secura e longe da árvore – não vi nenhuma perto, só estava ela largadinha no chão. A curvatura dela faz com que pareça um barco virado pra cima: vai acolher água da chuva, orvalho pela manhã, agarrar em mijo que escorra pela calçada e quem sabe navegar. Vai, não: agora está pousadinha na minha mesa, vai virar musa de canção. Tem a mesma curva dos anos que se vê nos velhos, prenunciando. Nela, o vermelho-vinho se demonstra ainda na parte do meio, vai amarronzando quando chega perto das bordas mortas. Mortas, elas guardam linhas coloridas de marrons e pretos, e se franzem num desenho bordado. É linda a folha morta, e rara, anunciando sozinha o destino. Outono.
Primogênita
junho 7, 2010 às 00:08 (Da cidade)
A primeira beleza é banal e estava logo diante do portão da minha casa – talvez porque eu, triste, não tenha tido coragem de sair até o finzinho da tarde. Era a luz do outono amarelecendo os prédios do outro lado da avenida, numa cara de cartão postal antigo, uma nostalgia sem nem. Atravessado, o sesc fazia sombra no prédio desbotado, desenhando como se uma montanha: nos primeiros andares, aqueles que estavam dentro, sob o desenho, já tinham se despedido desta segunda-feira sem-graça enquanto os outros, nos andares mais altos, ainda estavam nela, mergulhados na sua luz.
Aos 30, procurando belezas
junho 7, 2010 às 00:08 (apresentação)
Quando fiz 30 anos, vi que muitas coisas tinham mudado. O fazer 30 é isso: olhar pra trás e ver o que morreu, olhar pra frente e não saber o que virá, e conformar-se com isso, e o abraçar. É um ver que a vida não vai praonde a gente esperava. Mas vai pralgum lugar.
Das muitas amigas que tenho, cada uma tem vivido isso ao seu jeito. Há sempre um grande fracasso, um buraco, um caminho que ficou pra trás. Quem encontrou-se no amor desencontrou-se no trabalho, quem encontrou-se no trabalho desencontrou-se na filosofia, quem ganhou a religião perdeu o rumo. Como lembrou uma delas: “confesso, abestalhado, que estou decepcionado”, dizia Raul Seixas. Fazer 30 é saber que a felicidade vem – e passa.
Pra mim, a decepção vem um pouco de não ver mais as coisas com olhos virgens: não ter a surpresa, a descoberta, sentir que as coisas já são conhecidas e sabidas. Sempre me abracei nisso e fiz disso minha morada – o perguntar, o aprender, o investigar e descobrir. O não saber. Ser surpreendida. Fiz disso minha profissão até. Mas de repente as coisas têm gosto de usadas. Nunca gostei de andar em terreno conhecido; não saber as respostas foi o que sempre me fez feliz. E eis que estou fadada a amadurecer.
Foi pensando nisso que eu resolvi fazer esse blog. Pra desacostumar o olhar. Aqui vou, todos os dias, registrar alguma beleza que me tenha acontecido no meio do mesmo asfalto das mesmas ruas de sempre. E assim vou abrir os olhos para elas. Há belezas belas, há belezas intrigantes e há belezas feias, mas todas são surpreendentes – quando se toma tempo para olhar para elas. Aqui, vou guardá-las e colhê-las como quem coleciona quadros ou selos ou fotos antigas. E será nossa essa coleção.