Quando fiz 30 anos, vi que muitas coisas tinham mudado. O fazer 30 é isso: olhar pra trás e ver o que morreu, olhar pra frente e não saber o que virá, e conformar-se com isso, e o abraçar. É um ver que a vida não vai praonde a gente esperava. Mas vai pralgum lugar.
Das muitas amigas que tenho, cada uma tem vivido isso ao seu jeito. Há sempre um grande fracasso, um buraco, um caminho que ficou pra trás. Quem encontrou-se no amor desencontrou-se no trabalho, quem encontrou-se no trabalho desencontrou-se na filosofia, quem ganhou a religião perdeu o rumo. Como lembrou uma delas: “confesso, abestalhado, que estou decepcionado”, dizia Raul Seixas. Fazer 30 é saber que a felicidade vem – e passa.
Pra mim, a decepção vem um pouco de não ver mais as coisas com olhos virgens: não ter a surpresa, a descoberta, sentir que as coisas já são conhecidas e sabidas. Sempre me abracei nisso e fiz disso minha morada – o perguntar, o aprender, o investigar e descobrir. O não saber. Ser surpreendida. Fiz disso minha profissão até. Mas de repente as coisas têm gosto de usadas. Nunca gostei de andar em terreno conhecido; não saber as respostas foi o que sempre me fez feliz. E eis que estou fadada a amadurecer.
Foi pensando nisso que eu resolvi fazer esse blog. Pra desacostumar o olhar. Aqui vou, todos os dias, registrar alguma beleza que me tenha acontecido no meio do mesmo asfalto das mesmas ruas de sempre. E assim vou abrir os olhos para elas. Há belezas belas, há belezas intrigantes e há belezas feias, mas todas são surpreendentes – quando se toma tempo para olhar para elas. Aqui, vou guardá-las e colhê-las como quem coleciona quadros ou selos ou fotos antigas. E será nossa essa coleção.