Foi um achado, assim no meu caminho pequeno de duas vezes por semana, que me chamou a atenção por feia. Mais: por pequena, por estar ali quase para que eu pisasse nela e ouvisse um partir seco crash. Mas não. Peguei a folhabarco, hoje ela vai ficar aqui, preu olhar nela vez em hora. É bonita porque traz em si a morte, traz em si a vida e a tormenta da renovação. Uma folha vermelha, de que árvore será?, já encurvadinha pela secura e longe da árvore – não vi nenhuma perto, só estava ela largadinha no chão. A curvatura dela faz com que pareça um barco virado pra cima: vai acolher água da chuva, orvalho pela manhã, agarrar em mijo que escorra pela calçada e quem sabe navegar. Vai, não: agora está pousadinha na minha mesa, vai virar musa de canção. Tem a mesma curva dos anos que se vê nos velhos, prenunciando. Nela, o vermelho-vinho se demonstra ainda na parte do meio, vai amarronzando quando chega perto das bordas mortas. Mortas, elas guardam linhas coloridas de marrons e pretos, e se franzem num desenho bordado. É linda a folha morta, e rara, anunciando sozinha o destino. Outono.