Hoje eu vi uma coisa linda, e eram mãos. A mão, assim, mão já bastante usada na vida, mão de uma velha que gastou muito em amar e abençoar os outros. A mão dela, enquanto ela falava, repousava sobre as pernas cruzadas, ora molhava na água a benzer os outros ou ainda no charuto à boca, desfumaçar de mal as pessoas. Era encurvada além da conta quando se fechava, era coberta de pele que já se afina como vai afinando e amolecendo a carne, sempre. E segurava firme, e firme era o esmalte brilhoso, rosa-escuro que mantinha bem pintado em cada uma das cumpridas unhas. A mão era coberta de manchas marronzinhas e pintas que davam aquela aparência de leopardo que as mulheres vão ganhando enquanto a definhação vai chegando: um poder de ter vivido. Ela, a velha, sorriu um tanto cansada e serena depois das bênçãos. Contou que o neto outro dia olhava aquelas mãos com dó, e durante longa hora perdeu-se nas reentranciazinhas delas. Depois, disse: “a gente dá as mãos todos os dias né vó?”. As mãos da velha, pra ele, sagradas; e pra mim, santas.